A NOITE DOS TEMPOS

A resenha de “A Noite dos Tempos” é perfeita para ser publicada num site que se chama Literatura Fantástica ... esta é uma leitura realmente fantástica, em todos os alcances da palavra. É fantástica no aspecto de denominação literária, fantástica pelo fato do autor ter rompido a barreira do incrível e do imaginário e, acima de tudo, por ser um livro soberbo e magnífico. Ademais, encontramos nessa ‘obra prima’ de René Barjavel, um pouco de ciência, história mundial e política internacional. E encontramos muito mais: romance (um dos mais belos e bem escritos que já li) análise da natureza humana em seus diversos aspectos e ficção científica da melhor qualidade. Todos esses temas juntos fazem de “A Noite dos Tempos” um livro único.

A história começa quando uma expedição polar, vinculada à UNESCO[1] e composta por membros de diversos países, realiza o levantamento de um relevo subglacial, numa área do pólo sul, onde as camadas de gelo mais profundas datam de milhões de anos atrás. Durante uma análise rotineira, algo aparentemente inacreditável, acontece: as sondas captam sons de algum emissor, proveniente de um ponto há mais de mil metros de profundidade... que mistério poderia estar escondido nos recônditos das geleiras polares? Uma descoberta extraordinária, inimaginável, e porque não dizer, de uma beleza incomparável, estava para “despertar”... e parecia que somente aguardava o momento de ser apresentado ao mundo e mudar os rumos de sua história. Tal acontecimento é um choque não somente para a equipe expedicionária, mas para todo o planeta, haja vista ter sido divulgado nos quatro cantos do mundo. As grandes potências do século XX (EUA, Rússia, Inglaterra, França e mais alguns) reivindicam para si a posse do que foi descoberto; outros países consideram-no como pertencente a ONU e a população mundial considera pertencente a todos (pois é... alguns acontecimentos recentes na política internacional são “mera coincidência” pois o livro foi escrito em 1968).

O “milagre do pólo sul”, como foi chamado, mudará para sempre os conceitos de evolução, tempo e espaço dos maiores cientistas; sendo, também, um divisor de águas nas concepções pessoais da humanidade no que concerne às concepções de paz, guerra, sociedade, convivência entre os povos e amor... um amor muito além da compreensão da população mundial, em sua maior parte, dependente de opiniões estabelecidas por mídias e preceitos distorcidos (outro tema em foco na obra).

“A Noite dos Tempos”, ratificando, é uma história fantástica, um romance excepcional que se passa na atualidade e há quase um milhão de anos atrás, que leva o leitor a questionar-se e, com certeza, apaixonar-se... um marco literário da literatura francesa contemporânea, vencedor de importantes prêmios, mas, infelizmente, pouco conhecido no Brasil (devido, também, às poucas edições aqui publicadas). Porém, caso você o encontre (muito provavelmente num sebo, onde encontrei o meu) não deixe de adquiri-lo e invista nesse convite a uma maravilhosa utopia. Um livro que provavelmente ficará, pelo menos para os amantes da literatura, para sempre na memória...

 

[1]Organização das Nações Unidas para educação, ciência e cultura.

 

Serviço: "A Noite dos Tempos" (La Nuit des temps) - BARJAVEL, René; Editora Artenova.

 

 

Por Flávia Pires

AUGUSTO DOS ANJOS:

“O MISERÁVEL DENTRE OS MISERÁVEIS”

 

Diferentemente dos cearenses, que elegeram "padim ciço" personalidade do século, os nossos vizinhos da Paraíba identificaram-se profundamente com o poeta Augusto dos Anjos e meritosamente o escolheram paraibano do século XX. O povo da Paraíba viu que milagre maior foi "O poeta do hediondo" utilizando-se de uma linguagem científica, de uma simbologia hermética, de uma morbidez cheirando a cemitério e carne putrefata e de um extremo pessimismo no tocante ao ser humano, ser o bardo mais lido entre os jovens e ter sua única obra publicada ainda em vida, no ano de 1912, intitulada Eu, como o livro de poemas mais vendido da história da literatura brasileira.

A poética de Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, nascido em 20 de abril de 1884 no engenho Pau d' arco em Campina Grande, é uma transfiguração do seu perfil biográfico. Augusto veio ao mundo já dentro de uma atmosfera de decadência, como ele mesmo diz em um de seus versos mais famosos: "Sofro, desde a epigênesis da infância". Seu pai, Alexandre dos Anjos, era dono de engenho num período em que o engenho estava decadente, e é com seu genitor, homem dado à intelectualidade, que o futuro poeta tomaria gosto pela Arte literária, Filosofia e Latim.

Tanto seu pai quanto sua mãe Córdula dos Anjos eram altamente conservadores. Consta que certa vez Augusto apaixonara-se por uma tal Maria,moça pobre que dele dele engravidou, sabendo do ocorrido os pais repressores ordenaram matar a inocente mulher juntamente com a criança que nasceria. Esse episódio marcou profundamente  a visão do poeta sobre a vida, passou a ver a dor e o sofrimento constantes como fatores essenciais para viver, "Dor, saúde dos seres que se fanam,/Riqueza da alma, psíquico tesouro,(...)/És suprema! Os meus átomos se ufanam de pertencer-te oh! Dor, ancoradouro/ Dos desgraçados, sol do cérebro,(...)/Minha maior ventura é estar de posse/de tuas claridades absolutas!".

 

Continua...

AUGUSTO DOS ANJOS:

“O MISERÁVEL DENTRE OS MISERÁVEIS”

CONTINUAÇÃO

 

O incidente com Maria está em forma de alegoria no soneto A árvore da serra, no qual Augusto dialoga com seu pai, que determina cortarem a tal árvore,pois "-As árvores, meu filho, não têm, alma!", ao que o interlocutor clementemente pede, "Não mate a árvore, pai, para que eu viva!","Esta árvore,meu pai, possui minha'lma!...".Como no poema Augusto "triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!", deixando morta também a semente da qual geraria sua descendência.

Porém  em 1910 o poeta casa com Éster Fialho, com quem teve três filhos,o primeiro natimorto em 1911; em 1912 nasce Glória, a quem dedica o Eu; e no ano seguinte  Guilherme. Mas o efeito Maria deixa fortes sequelas em Augusto ao ponto dizer que jamais voltaria a "amar mulher alguma".

Desde os tempos do Liceu paraibano que Augusto dos Anjos era visto pelos demais como um ser desafortunado, sobre isso escreve seu melhor amigo, Órris Soares:"Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida-faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura, e nos lábios uma crispação de demônio torturado." Tal descrição é a concretização física de sua Psique.

"A que escola se filiou?", pergunta Órris Soares. A poesia de Augusto dos Anjos é na verdade um caleidoscópio estético, são muitos os estudiosos que se debruçam sobre a obra do paraibano e munidos de argumentos exegéticos o enquadram nesta ou naquela escola literária. As leituras de sua lírica vão desde o Barroco ao Pré-Modernismo.

Na época do lançamento  do Eu, foram poucos os críticos a reconhecer a envergadura que os poemas da obra alcaçariam, Gilberto Amado foi um dos que conseguiram visionar  a poética do paraibano:"Começa(...)um movimento de imitação a um rapaz histérico(...)de extraordinário talento(...)misantropo,(...)Augusto dos Anjos." Já o "príncipe dos poetas", Olavo Bilac, enojado pela estética de Augusto felicitou-se quando da morte deste.

Mesmo execrado pelos parnasianos e ignorado pelos modernistas de 22, a lírica lúgubre de dos Anjos sobreviveu com fôlego total a toda e qualquer opressão literária.

O pobre Augusto dos Anjos viveu enfermo da alma e morreu com pneumonia aos 30 anos, em 12 de novembro de 1914 na cidade de Leopoldina em Minas Gerais, bem longe de sua terra natal. Do mesmo modo que os grandes nomes da literatural universal, o poeta Augusto teve sua expressiva obra elevada ao cânone da literatura nacional, pois ela sempre esteve viva e assim permanecerá para todo o sempre.

 

Serviços: Anjos, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martin Claret, 2004.

Sérgio A. M. Filho

 

NOTA DO EDITOR: Devido a problemas técnicos, a resenha do amigo Leonardo Martins não pode ser publicada. Decidi então publicar essa resenha, também como uma homenagem ao nosso amigo Sérgio Filho, aniversariante do dia. A resenha teve que ser dividida em duas devido ao famigerado limite de caracteres por post aqui na UOL.

 

 

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