O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS
OU
A COMÉDIA CRÍTICA DE DOUGLAS ADAMS
"Muito além, nos confins inexplorados(...)desta galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
Girando em torno deste sol,(...)há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante...
Este planeta tem-ou melhor, tinha-o seguinte problema:a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes."
Assim começa O guia do mochileiro das galáxias, e é com essa ironia que o inglês Douglas Noel Adams vai pautar essa sua obra de ficção-científica cômico-filosófico com pintadas de surrealismo.
Nesse sentido Adams nos faz pensar sobre a condição humana e seu papel no mundo, ou melhor, no "planetinha verde-azulado absolutamente insignificante."
Questões como a inteligência do homem, o sentido da vida e a origem da terra são escancaradas por Adams com muita comicidade. Pelo menos a origem da terra é descoberta pelo protagonista Arthur Dent, ainda que por um perço altíssimo:a dizimação do nosso planeta.Episódio este muito mais cômico do que trágico. Arthur Dent é salvo minutos antes da destruição total pelo seu amigo extra-terrestre Ford Prefect, e com ele conhecerá boa parte da galáxia, mostrando-nos que o restante do universo não é tão diferente do planetinha azul. Aqui Adams faz do cosmos uma alegoria das relações político-sociais que nós vivemos. A burocracia, a corrupção e a imcompetência governamental estão sempre na mira da perspicaz sátira do escritor inglês.
Em o guia do mochileiro, a reflexão filosófica se dá pela via do lúdico, isto é, ao mesmo tempo diverte e faz pensar, principal pressuposto da Literatura infanto-juvenil de boa qualidade.
O ponto alto da obra, no que concerne à Filosofia, é um suposto diálogo entre Deus e o Homem, no qual o Ser supremo (numa hilária dialética) prova Sua inexistência. Segue-se assim outras cenas bastante engraçadas, que nas entrelinhas é possível detectar certa profundidade conteudística, como a incessante busca pela grande resposta à pergunta sobre a vida o universo e tudo mais, cuja solução está longe de satisfazer os habitantes do universo, que esperam há milhões de anos pela tal resposta.
Evidentemente que Adams não parece querer dar uma resposta definitiva às questões que norteiam a humanidade, até mesmo porque O guia do mochileiro é antes de qualquer coisa uma excelente comédia, a qual pode muito bem oferecer ao leitor, base para uma boa discussão sobre essas indagações que há milênios tiram o sono dos pensadores, e talvez essa problemática nunca venha a ser solucionada. Ainda bem!
Serviço: Adams, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias.[Tradução de Carlos Irineu da Costa & Paulo Henrique Britto]. 2ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.
Por Sérgio Filho.
|
|||