O BEST SELLER O CÓDIGO DA VINCI

Contém spoillers

 

O best seller do momento O Código Da Vinci nada tem de original. Além do amontoado de clichês holywoodianos em um romance policial, as especulações acerca da vida de Jesus Cristo, Maria Madalena e do que seja o Santo Graal já haviam sido discorridas pela pena de outros escritores que como Dan Brown, autor do livro, tiveram o único objetivo de lucrar.

A teoria de que o Cálice Sagrado é um símbolo do feminino para representar a vagina são de 1920 da inglesa Jessie Weston, e a que afirma o matrimônio entre Jesus e Madalena seguido de uma prole, estão presentes no livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, primeiro fenômeno pop sobre o tema, de 1983, dos autores ocultistas Michael Baigent e Henry Lincoln, que incluem também sociedades secretas como a Maçonaria e Rosa-cruz. Já na década de 1990 foi a vez de um certo Peter Berlinger lucrar com o seu best seller Os Filhos do Graal. Tendo isso em vista e por isso, O Código da Vinci apresenta ser muito mais uma cópia alterada do assunto para os nossos dias do que uma intertextualidade com essas obras.

A leitura do romance só se sustenta devido a uma enxurrada de enigmas desvendados página a página numa junção de episódios seqüenciados, enfocando demasiadamente o enredo em detrimento de uma possível análise psicológica das personagens.

Um ponto capital que deve ser comentado são as citações de obras de arte do renascentista Leonardo Da Vinci para fincar a trama, ao mesmo tempo que tenta ilustrar a obra, esse quesito não a qualifica como boa leitura, como  nos faz crer algumas resenhas, isso demonstra unicamente bom conhecimento de arte por parte do autor, o que nem de longe o torna bom escritor. Trata-se na verdade de uma leitura de entretenimento direcionada a um público leitor iniciante e nada exigente, e atribuir maiores qualidades ao livro é superestimá-lo. Outra questão importante a ser apontada é a total ausência de teor filosófico sobre a condição humana do fundador do cristianismo, marca presente em A Última Tentação de Cristo do escritor grego Nikos Kazantzakis, transformado em filme homônimo por Martin Scorcese e citado em certa passagem de O Código Da Vinci. O que há são meras especulações sobre a vida do Messias, sem apresentar bases científicas mais sólidas.

O amontoado de clichês se refere a uma cinematográfica intriga policial, uma “implacável” perseguição a dois suspeitos de assassinato: O professor de Havard Robert Langdon e a criptógrafa Sophie Neveu, neta do curados do Louvre Jacques Saunière assassinado no início da ficção, casal este que protagoniza a história e tenta a um só tempo desvendar um segredo milenar – guardado a sete chaves por sociedades secretas como os Templários e o Priorado de Sião e de conhecimento também do Vaticano que teme a sua revelação aos fiéis – e provar sua inocência. Da metade do livro a diante, porém bem antes do epílogo, é possível descobrir o tal segredo milenar, quem é o vilão que a distância manipula seus títeres e todos os outros “problemas” sugeridos ao longo da trama.

Quanto às personagens, quando não são inverossímeis – a exemplo do próprio enredo exageradamente conveniente – são bastante superficiais, cedendo lugar ao maniqueísmo. Vide os protagonistas, autênticos estereótipos: O intelectual desajeitado, Robert Langdon e a mocinha destemida que esconde um trauma, Sophie Neveu. O outro exemplo é o do secundário Bezu Fache, “capitão da diretoria central da polícia judiciária” francesa, sujeito durão e perfeccionista no melhor estilo Tommy Lee Jones no filme O Fugitivo.

Há ainda os antagonistas: o vilão cognominado “o mestre”, que só revela sua verdadeira identidade nos previsíveis momentos finais da história, como sendo o também intelectual Sir Leigh Teabing, historiador da coroa britânica e demente obcecado pelo Graal, cujas ordens são obedecidas prontamente pelo fanático religioso Silas, que nas horas vagas se autoflagela, e que não mede esforços na defesa dos interesses políticos de sua igreja. Assim os personagens, sem vontade própria, já que tudo conspira favorável aos bons e desfavoráveis às forças que se opõem a estes, ficam a mercê da trama, como se levados por ela a seu bel prazer.

Em outras palavras O Código Da Vinci não passa de literatura feita sobre encomenda, pré-fabricada e vendida a um amplo mercado consumidor ávido por uma leitura fácil, vazia e efêmera. No caso de Dan Brown ele parece se utilizar de moldes muito semelhantes para tecer seus livros. O outro romance do autor, Anjos e Demônios, é também uma trama policial envolvendo sociedades secretas, Vaticano e Robert Langdon, já o seu próximo livro é sobre sociedades secretas, Washington e ao que tudo indica, Robert langdon.

 

Sérgio Araújo M. Filho

[ ver mensagens anteriores ]
Visitante número: